segunda-feira, 30 de abril de 2012

História da Linguística

O objeto de estudo da Linguística não é novidade, nem recente. Desde a Antiguidade, já se estudavam as línguas, a linguagem, no entanto “o termo [Linguística] foi empregado pela primeira vez em meados do século XIX, para distinguir as novas diretrizes para o estudo da linguagem, em contraposição ao enfoque filológico mais tradicional.”1 A ciência linguística se tornou especialmente conhecida e ensinada na década de 60.

De qualquer maneira, é de utilidade apresentar um panorama sobre os estudos linguísticos nas diversas épocas. Como referência, será utilizado o Um Traçado da História da Linguística2, do qual é feita uma espécie de resenha a seguir.

Dividiremos em 4 períodos: Antiguidade, Medievo, Modernidade e Contemporaneidade.

  1. Antiguidade

  • Tradição babilônica: os textos mais antigos datam de cerca de 4.000 anos atrás. Nos primeiros séculos do segundo milênio a.C., no sul da Mesopotâmia, surgiu uma tradição gramatical – nomes/substantivos em sumério (língua dos textos religiosos e sagrados) – que durou mais de 2.500 anos. O sumério foi sendo trocado no discurso do cotidiano por outra língua diferente (o acádio). Continuou prestigioso e usado em contextos religiosos e legais; foi ensinado então como língua estrangeira.
  • Tradição hindu: ela tem origem no primeiro milênio a.C. e foi estimulada por mudanças no sânscrito (língua sagrada dos textos religiosos). O ritual exigia a exata realização verbal dos textos religiosos; então a tradição gramatical mais conhecida é a de Pānini, cuja gramática cobria a fonética e a morfologia.
  • Linguística grega: como em outras áreas de esforço intelectual, os gregos fizeram investigação filosófica sobre a linguagem: a origem da linguagem; sistemas de partes do discurso; relação entre linguagem e pensamento; iconicidade e arbitrariedade das palavras-signos. No Crátilo de Platão, Sócrates aparece defendendo a conexão natural; Aristóteles, por outro lado, favorecia a convenção em vez da natureza. É de Dionísio Thrax, Technē Grammatikē, uma breve descrição do grego tratando de fonética e fonologia (inclusive partes do discurso). Apolônio Díscolo, séculos depois, descreverá a sintaxe grega.
  • Tradição romana: continuou com o mesmo interesse da linguística grega. O interesse primário era em morfologia, particularmente nas partes do discurso e as formas de nomes/substantivos e verbos. A sintaxe foi largamente ignorada. Varrão produziu uma gramática do latim. As gramáticas tardias de Donato e de Prisciano foram muito influentes na Idade Média.
  • Tradições arábica e hebraica: a tradição gramatical grega teve forte influência sobre a tradição arábica, que também se focava na morfologia e tinha descrições fonéticas precisas. Influenciou a tradição hebraica. Ben Josef al Fayyum produziu a primeira gramática e o dicionário de hebraico. A tradição gramatical hebraica atingiu seu pico com David Kimhi e em subsequência teve forte impacto na linguística europeia.

  1. Medievo

Na Idade Média, o latim era tido em grande estima como língua franca e como a primeira língua escrita. Gradualmente cresceu nos estudiosos o interesse pelas línguas vernaculares. Gramáticas pedagógicas do latim para nativos de outras línguas começaram a aparecer. Um abade na Bretanha, mais ou menos no ano 1.000, escreveu uma gramática do latim para crianças falantes do anglo-saxão. Escreveram-se também gramáticas descritivas dos vernáculos, que geralmente apresentavam as línguas aos moldes do latim.

No séc. XII, apareceu a noção da natureza universal da gramática. Bacon sustentava que a gramática fosse fundamentalmente a mesma em todas as línguas, com diferenças incidentais e superficiais. No mesmo século ainda, houve O Primeiro Tratado Gramatical de um desconhecido autor da Islândia que apresentava uma breve descrição fonológica do islandês e que se preocupava em corrigir desta língua imperfeições do sistema de escrita baseado sobre o latim.

Pelo colonialismo europeu, tomou-se ciência de diversas línguas. Os estudiosos compilavam listas de palavras e comparavam as línguas, o que viria a gerar o método comparativo.

Ao final do séc. XVI, surgiu a noção de que as línguas europeias formam uma família e que a partir das línguas filhas se voltaria a uma única língua antiga. Andreas Jäger propôs isso em 1686 definindo a terra natal desta língua antiga como as montanhas caucasianas, de onde as línguas se espalharam para a Europa e Ásia. Por equívoco de história, é a William Jones dado o crédito da descoberta da relação das línguas indo-europeias e a fundação da linguística comparativa. Outras famílias foram reconhecidas depois. Rasmus Rask apontou a importância da evidência gramatical para o estabelecimento das relações entre as línguas.

A linguística no período colonial tinha outras preocupações que não a comparação e classificação de línguas. Escreveram-se gramáticas das línguas europeias e das línguas das colônias. Os missionários tiveram um papel importante e suas gramáticas de línguas não europeias dominaram do séc. XVI ao XVIII. O padre jesuíta José de Anchieta é uma figura de destaque: conhecia o português, o castelhano, o latim, e aprendeu o tupi, compondo a primeira gramática deste. O latim era a base das gramáticas missionárias, ainda que os melhores gramáticos missionários tivessem consciência dos problemas de aplicar as classes e estruturas latinas às outras línguas.

  1. Modernidade

A linguística moderna surgiu no final do séc. XIX e começo do séc. XX trocando o foco da mudança da língua ao longo do tempo para aquele de um sistema estruturado e autônomo em determinado ponto no tempo, formando, então, a base da linguística estruturalista no período pós-Primeira Guerra.

O linguista suíço Ferdinand de Saussure, conhecido como o pai da linguística moderna, é amplamente reconhecido por essa mudança de foco. Ele mesmo escreveu pouco, mas seus alunos, por notas de aulas, reconstruíram suas ideias, publicando-as postumamente em 1916 no Curso de Linguística Geral. Saussure defendeu a conceituação e a arbitrariedade do signo linguístico, sendo de grande influência.

A Fonética e a Fonologia foram dominantes na linguística moderna inicial. O IPA (International Phonetic Association) foi estabelecido em 1886 por um grupo de foneticistas europeus.

  • A Escola de Praga

O interesse primário do Círculo Linguístico de Praga (capital da República Checa), estabelecido em 1926, era teoria fonológica. O professor russo em Viena, Nikolai Trubetzkoy (luz guia neste domínio), fez importantes contribuições à noção de fonema. A colocação do fonema no centro da teoria linguística como uma das unidades mais fundamentais foi bem sucedida pela escola de Praga. Estes linguistas também contribuíram com a sintaxe. Jakobson talvez seja o representante mais famoso da escola de Praga.

  • Estruturalismo Britânico

Firth, que estabeleceu a chamada London School (Escola de Londres), trouxe perspectivas originais e provocativas à linguística. Questionou a admissão de que o discurso pode ser dividido em segmentos de som um após o outro. Firth estava profundamente preocupado com o significado, desenvolvendo uma teoria contextual do significado, de onde o aforismo “o significado é o uso em contexto”. Ele não desenvolveu completamente uma teoria de gramática; deixou uma estrutura sobre a qual se poderia desenvolver uma teoria.

  • Estruturalismo Dinamarquês

A escola de Copenhague era chefiada por Louis Hjelmslev, que desenvolveu uma teoria algébrica da linguagem chamada Glossemática, que se focava nas relações entre unidades no sistema da língua. A teoria antecipou a orientação algébrica dos linguistas americanos do pós-1940. Uma geração de linguistas dinamarqueses foram influenciados por esta teoria no período de 1930-1960.

  • Estruturalismo Americano

Franz Boas, Edward Sapir e Leonard Bloomfield foram os responsáveis pela vertente do estruturalismo americano. A preocupação maior de Boas era reunir informações sobre as línguas e culturas dos americanos nativos antes que desaparecessem, e os métodos que ele e seus alunos desenvolveram para a descrição dessas línguas deram a base para o estruturalismo americano. Boas, com seu aluno Sapir, defendia que as línguas deviam ser descritas em seus próprios termos, em vez de aos moldes das línguas europeias.

A preocupação primária de Bloomfield era estabelecer a linguística como ciência. Sua abordagem, focada na metodologia, era força dominante na linguística americana dos anos 30 até meados dos anos 50. Os métodos analíticos tentavam excluir o significado o tanto quanto fosse possível.

  1. Contemporaneidade

Costuma-se dividir a vasta gama de enfoques linguísticos em dois tipos primários, formal e funcional, conforme o foco seja respectivamente a forma ou a função, apesar de que esta divisão é mal arranjada, porque as teorias não se encaixam perfeitamente nesta divisão.

  • Linguística Formal

A principal corrente do estruturalismo neobloomfieldiano se tornou cada vez mais de orientação algébrica desde o fim da Segunda Guerra, e se focava cada vez mais na sintaxe. Em 1957, isso sofreu um desafio maior com a publicação de Noam Chomsky de Estruturas Sintáticas. Influenciado pelos recentes desenvolvimentos da lógica matemática, ele rejeitava explicitamente os procedimentos de descoberta, a posição sem teoria, o sustento da psicologia behaviorista e a orientação empírica da tradição neobloomfieldiana.

O pensamento de Chomsky rapidamente se tornou dominante na América, na Europa e em todo lugar. A gramática é considerada como um sistema formal explicitando os mecanismos – primeiro em termos de regras, depois por outros meios – pelos quais as frases gramaticais de uma língua podem ser geradas, daí a corrente ser chamada de gramática gerativa. A teoria generativa se desenvolveu rapidamente.

  • Linguística Funcional

No final dos anos 50, houve novos desenvolvimentos em linguística na Europa. Eles, sob liderança de André Martinet e Michael Halliday, decolaram em direções funcionalistas, salientando tanto o lado do significado do signo de Saussure quanto a ideia de que a língua se desenvolve por causa dos seus usos.

Mais tarde, em oposição à linguística chomskiana, a partir do final dos anos 60, desenvolveu-se a gramática funcional pelo linguista holandês Simon Dik. Rejeitando as noções principais da gramática gerativa, ele exigia seriamente explicitação analítica e teorética.

Uma escola de pensamento sem líder reconhecido, a Gramática Funcional da Costa Oeste, surgiu nos EUA, com seus praticantes localizados na costa oeste da América, pelo mesmo tempo. A ideia proeminente desta corrente era a de que as categorias gramaticais são funcionais – serviam a algum propósito, não eram arbitrárias. As linhas da gramática cognitiva (associada a Ronald Langacker) e da gramática construtiva (Charles Fillmore e associados), em contraste com a Gramática Funcional da Costa Oeste, interpretam o signo saussureano como peça central da gramática.

Ao final dos anos 50 na América, Joseph Greenberg começou a repensar questões de universais e tipologia da linguagem. Ele procurava os universais empiricamente, investigando muitas línguas, rejeitando o racionalismo de Chomsky e seu foco excessivo em uma única língua, o inglês. A corrente greenbergiana é uma das menos funcionalistas das escolas funcionalistas.

Escopo da Linguística Moderna

A linguística contemporânea é um campo ricamente diversificado, de modo que nenhum estudioso espera cobri-los todos. A gramática gerativa é aquela que tem maior força ao guiar suas orientações e metas, ainda que outras teorias também tenham tido algum impacto.

Quase 7.000 línguas são faladas hoje. Um número de linguistas se ocupa com colher dados de línguas pobremente documentadas. Linguistas missionários continuam com papel proeminente. Os avanços tecnológicos desde o começo do séc. XX – incluindo gravadores de áudio e vídeo, e computadores – têm facilitado imensamente a tarefa de documentação e descrição das línguas.

Os linguistas têm se aplicado a crescentes interesses além dos tradicionais como o aprendizado de língua, o letramento e a tradução. Por exemplo, a linguística descritiva, a psicolinguística, a pragmática e a análise de conversação, a sociolinguística, a linguística computacional.

Referências:

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